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Mais importante do que discutir o goleiro é discutir o DNA do goleiro brasileiro

Imagem criada com Inteligência Artificial.
Imagem criada com Inteligência Artificial.

Após mais uma eliminação da Seleção Brasileira em Copa do Mundo, o debate tomou conta do futebol nacional. Vieram análises sobre a constante troca de treinadores, a falta de continuidade de um projeto esportivo e a influência de modelos de jogo importados, muitas vezes incompatíveis com a cultura futebolística brasileira. Houve quem apontasse a adoção de um comportamento excessivamente reativo, associado às características de Carlo Ancelotti, contrastando com a identidade historicamente construída pelo futebol brasileiro, marcada por iniciativa, protagonismo com a bola e domínio do jogo através da posse. São discussões pertinentes e necessárias.


No departamento de goleiros, a discussão também ganhou força. Durante toda a Copa do Mundo, muito se ouviu que Alisson era "apenas um bom goleiro". Em diversos momentos, a palavra "bom" foi utilizada quase de forma pejorativa, como se sua regularidade tivesse menos valor do que atuações consideradas milagrosas. Voltaram comparações com outras Copas, afirmando que o goleiro brasileiro não seria decisivo o suficiente para levar a seleção adiante. A discussão, porém, permaneceu superficial. Avaliou-se o resultado, mas pouco se analisou o contexto em que esse goleiro está inserido, as demandas impostas pelo modelo de jogo e, principalmente, se o perfil exigido pela equipe potencializa suas principais características ou não.


Outro tema que ganhou espaço foi a altura dos goleiros. Em poucos dias, criou-se quase uma relação de causa e efeito entre estatura e alto rendimento internacional. De repente, parecia que encontrar goleiros acima de determinado tamanho seria prioridade absoluta para o bom goleiro no mundo. Naturalmente, a estatura representa uma vantagem em determinadas ações do jogo, principalmente na defesa de espaços aéreos e na cobertura do gol. Porém, transformá-la em critério principal significa reduzir uma posição extremamente complexa a uma única característica física.


Grandes goleiros da história provaram justamente o contrário: o desempenho é consequência da compatibilidade entre perfil, tomada de decisão, leitura do jogo, capacidade física, técnica e inteligência tática. Todos de maneira conjunta e não separados.


Talvez por isso estejamos discutindo a pergunta errada, o ponto central não deveria ser quem será o próximo goleiro da Seleção Brasileira. Antes disso, precisamos responder outra questão muito mais importante: qual é o DNA de jogo que queremos para a Seleção Brasileira?


Porque é justamente esse DNA que determinará o perfil de goleiro necessário.

Se desejamos um Brasil protagonista, que pressione alto, controle a posse, ocupe o campo adversário e jogue distante do próprio gol, o goleiro deixa de ser apenas um defensor da meta. Ele passa a ser um jogador integrado ao sistema coletivo.

Esse goleiro precisa dominar muito mais do que técnicas de defesa.

Precisa compreender espaços.

Precisa gerenciar profundidade.

Precisa oferecer apoio permanente à construção ofensiva.

Precisa participar da circulação da bola com qualidade técnica e entendimento do jogo.

Precisa comunicar, organizar e sustentar uma equipe que atua em bloco alto.

E, principalmente, precisa defender grandes espaços às suas costas quando a linha defensiva avança.


Ou seja, formar esse goleiro exige muito mais do que treiná-lo para fazer defesas.

Exige formar um jogador capaz de resolver problemas do jogo antes mesmo que a finalização aconteça.

Talvez esse seja o maior vazio existente atualmente na formação brasileira.

Enquanto discutimos quem será o sucessor de Alisson ou Ederson, pouco debatemos quais competências esse futuro goleiro deveria desenvolver desde as categorias de base. Continuamos dedicando enorme parte do treinamento aos padrões reativos — defesas sobre a linha, repetições técnicas, situações previsíveis de finalização — enquanto o jogo internacional exige goleiros cada vez mais participativos, capazes de interferir ofensiva e defensivamente em espaços muito maiores.


A próxima Copa do Mundo provavelmente marcará uma transição. Teoricamente, Alisson e Ederson dificilmente chegarão como protagonistas do próximo ciclo. Naturalmente surgirá a pergunta: quem será o novo goleiro da Seleção?

Talvez, como treinadores de goleiros, devêssemos fazer outra pergunta.


O que estamos fazendo hoje para que esses futuros goleiros estejam preparados para disputar uma Copa do Mundo?


Estamos formando atletas preparados apenas para defender?

Ou estamos formando jogadores capazes de jogar com a equipe?

Estamos desenvolvendo goleiros que compreendam um futebol proativo, que saibam sustentar linhas altas?

Que defendam espaços com naturalidade e iniciem ataques?

Porque não basta revelar excelentes defensores. O futebol moderno exige goleiros compatíveis com a ideia coletiva da equipe.

E talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio do Brasil.


Se até o Japão, através de um projeto nacional consistente, vem surpreendendo o mundo ao desenvolver goleiros perfeitamente compatíveis com um modelo de jogo proativo, integrado e sustentado por anos de planejamento, por que o Brasil ainda encontra tanta dificuldade para definir o seu próprio caminho?


Estamos falando do país que revolucionou o futebol inúmeras vezes.

Do maior campeão mundial.

Do país que sempre inspirou criatividade, protagonismo e identidade dentro de campo.

Talvez esteja na hora de pararmos de procurar apenas o próximo grande goleiro e começarmos a construir, com método, convicção e continuidade, o próximo grande projeto para os goleiros brasileiros.

Porque grandes goleiros não surgem por acaso.

Eles são consequência direta da identidade de jogo que um país decide construir.


Valdir Bardi Treinador de Goleiros Licenças AFC.

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